20 de fevereiro de 2020

Resenha: Os Fornos de Hitler

"Eu era o número 25.403. Ainda o tenho tatuado no braço direito, e o levarei comigo para o túmulo."
 Título: Os Fornos de Hitler / Editora: Crítica
Autora: Olga Lengyel / Páginas: 240
Resenhista: Mel
Comprar / Adicione: Skoob
SinopseA história real de uma mulher sobrevivente de Auschwitz. Olga escreveu este livro com a leveza de um diário – apesar de nunca ter sido. Nele, ela conta em detalhes como era a vida no campo, mostrando com clareza e simplicidade o horror cometido pelos alemães.

Olga Lengyel conta, de forma sincera e aberta, uma das histórias mais horripilantes de todos os tempos. Este relato verdadeiro e documentado é o registro íntimo e diário de uma mulher que sobreviveu ao pesadelo de Auschwitz e Birkenau. Uma experiência relatada de maneira chocante.
        
Nota: 5/5

Os Fornos de Hitler é um livro extremamente forte, real e... Sabemos que tem um trilhão de palavras para descrever o período do Nazismo na história da humanidade. Diversas vezes tive que me fingir de forte, ser fria para engolir todas as atrocidades, os atos desumanos contra a nossa espécie retratados no livro.
"Viam um conjunto de prédios de tijolos vermelhos de aparência agradável, e presumiam que se tratasse de um hospital."
Logo no início do livro fico em choque por saber que a protagonista da história é a própria escritora. Uma sobrevivente ao holocausto, onde passou mais de um ano em Auschwitz-Birkenau. Olga, como grande número dos judeus daquela época - ao meu ver - tinha uma vida muito boa. Ela tinha seu marido, um médico muito famoso e que trabalhava muito; tinha seus filhos (sendo um deles adotado), e uma vida boa financeiramente falando. Além disso, seus pais ainda eram vivos. Imaginem pessoas da classe alta, marido médico, ela uma estudante de medicina. Já havia se passado bastante tempo até o início aos campos de concentração e todo o sofrimento, mas ainda em 1944 isso era algo que ela e a família nem imaginavam, por motivos óbvios, que não saiam por ai espalhando que o nazismo estava matando milhares de Judeus, e por serem de uma classe mais rica, com o conforto que tinham nem pensavam no que poderia estar ocorrendo.

Seu marido foi designado para ir para um lugar. Não sabiam onde iriam, mas imaginavam que ele iria cuidar de doentes, exercer a sua função como médico. Assim, Olga não quis o deixar só, e não só ela, como toda a família decide ir junto para onde ele for -incluindo os pais dela. 

De forma chocante, acompanhamos as dificuldades enfrentadas pelos passageiros que estavam junto no trem de carga animal, o qual passaram 8 dias dentro, sem receber água ou qualquer tipo de alimento, a não ser os que alguns levaram consigo nas malas. Chocante devido ao que passaram, pessoas morreram no caminho e doenças transmissíveis foram desenvolvidas nos cadáveres. 8 dias no caminhão de carga, até chegarem em Birkenau. 
"Eu tinha, então, duas razões para viver: primeiro, trabalhar com o movimento de Resistência e me manter em pé o máximo que podia; segundo, sonhar e rezar pelo dia em que seria libertada para contar ao mundo: “Foi isto o que vi com meus próprios olhos. Não devemos permitir que isso jamais aconteça outra vez!”."
Chegando lá, diferente de outros sobreviventes: porque no livro "É isto um homem", quando chegavam lá ou até umas alturas eram obrigados a retirarem a roupa, tomarem um banho de água gelada e não tratada, e correrem em meio à neve até as instalações (havia muitas mortes)...
No livro, "Os Bebês de Auschwitz", as pessoas não passaram tanto tempo assim na viagem, e quando chegavam eram tratados de forma bruta, logo eram separados quem iria viver ou morrer, dando de cara com o Médico Josef Menguel. 
Em "Os Fornos de Hitler", no transporte em que Olga foi as pessoas eram importantes na sociedade, quando chegaram pediram que entregassem a bagagem e... em fim, foram educados e receptivos, mas isso até entrarem no campo.  

Outro detalhe é quem, também havia a seleção de quem iria para a esquerda e quem iria para a direita, esquerda sendo a opção de morte logo em seguida, e os pais dela foram para a esquerda e quando perguntaram se o filho dela tinha mais de 12 anos e ela negou, ela se arrepende amargamente, conduzindo o próprio filho à morte. Disso na leitura inteira ela se culpa, se arrepende, sente dor ao relembrar o lugar em que chegaram, na decisão que fez.

Outro fato importante é que, a própria Olga afirma, com certeza e um tanto de medo que Auschwitz era um campo de trabalho, e Birkenau um lugar para se morrer. E vemos isso mesmo no decorrer do livro. E mesmo assim, em ambos lugares a alimentação era tipo a mesma, horrível, muitos morriam por subnutrição.
"Auschwitz era um campo de trabalho, enquanto Birkenau era um campo de extermínio"
Ela conta nos mínimos detalhes os momentos desde o início que chegou lá. O que foi diferente, agoniante e estranho, porque ela teve um grande foco nas pessoas, nos guarda, até mesmo no que eles falavam, no Dr. Josef Melguel, na Irma Grese, e em outros nomes muito conhecidos, eu em particular conhecia mais esses dois nomes e estava muito curiosa para saber mais de como eles agiam com os judeus. 
"Como odiávamos esse charlatão! Ele profanou o verdadeiro sentido da palavra “ciência”! Como desprezávamos seu ar presunçoso e arrogante, seus contínuos assobios, suas ordens absurdas, sua crueldade fria! Se tive vontade de matar alguém algum dia, foi quando a pasta de Mengele estava sobre a mesa e vi o contorno de um revólver."
Certo tempo depois, quando determinaram uma área para algum atendimento, ela foi designada já que era estudante de medicina. Nesse ambiente ela viu, presenciou e cuidou de diversos casos, é... nem consigo achar a palavra certa, mas ela enfrentou uma barra muito pesada. E então, quando já estava um estado muito grande de depressão, uma pessoa deu ânimo para ela, deu esperança e um propósito para viver: Ser do grupo da Resistência. Ela ajudaria informar sobre qualquer notícia de fora, e qualquer ato contra os guardas ou a instalação, já era uma vitória para eles. Eles arrumaram uma maneira de se identificarem como sendo da Resistência e fizeram muitos feitos. 
"As torturas e humilhações a que os padres eram submetidos foram as mais horripilantes que de qualquer outra pessoa que eu tenha visto. Os clérigos eram usados em diversas experiências, incluindo a castração."
Inclusive, uma das maiores coisas que a Resistência poderia ter feito foi o coletamento de dados sobre o horror cometidos pelos nazistas. Então, com isso, hoje podemos saber quantos eram mortos no início, quantos eram transportados em cada vagão... e diversas outras coisas, também, como se deu o fim de algumas pessoas. Todos esses dados, e casos científicos feitos pelos médicos estão no livro, não todos, mas muitos casos. 
"Conversei com um menino de 12 anos do campo tcheco que estava andando junto ao arame farpado à procura de algo para comer [...] Circulou a história por todo o campo sobre a coragem de um menino antes de subir no caminhão que o levaria para a câmara de gás. “Não chore, Pista”, implorou a outro menino húngaro. “Não viu que nossos avós, pais, mães e irmãs foram mortos? Agora é a nossa vez.” Antes de entrar no caminhão, virou-se para o SS com olhar sombrio e disse ao alemão: “Há uma coisa que me dá prazer; muito em breve você irá coaxar também”."
Uma curiosidade é que provavelmente passei uns bons seis anos da minha vida (provavelmente o tempo que descobri sobre a história do genocídio), achando que Hitler queria construir a raça Ariana e não é bem isso que Olga nos mostra, nos relata e com coisas bem verídicas. Eles na verdade estavam procurando uma forma de tornar as mulheres estéril, para que as outras nações "inferiores", não pudessem mais reproduzir e deixassem espaço para a raça Ariana. Além de fazer testes que machucavam muitas mulheres, eles também colocavam um pó na comida de todas na hora da preparação, para meio que destruir a chance das mulheres engravidarem.

É de dar raiva muitas coisas relatadas, os guardas eram muito debochados, muito arrogantes. É difícil descrever, mas gostavam de fazer com que eles passassem vergonha e coisas do tipo. Uma coisa que me irritou muito foi o fato de, como eles não tinham no que trabalhar (além de alguns limparem as "latrinas" que seria o vaso deles), os guardas mandavam eles encherem baldes com pedras e levar até uma distância muito longa, chagando lá, despejar as pedras e fazer o mesmo, voltando pela distância longa. Para fazerem nada. Aff 
Um fato que me chocou em extremo e quis vomitar é essa descrição:
"Enormes barris eram usados para coletar a gordura humana que derretera com as altas temperaturas. Não era de estranhar que o sabão do campo tivesse um cheiro tão peculiar. Não era surpreendente também que os internos desconfiassem do aspecto de alguns pedaços de salsicha!"
Esse é com certeza um livro para os fortes, a escrita da autora é muito boa, às vezes eu não gostava da pontuação, mas tirando isso esse livro é incrível, e pode servir também para fontes científicas. Quem estuda história não pode ficar sem ler esse livro. Há muitas coisas, muita informação e sofrimento em todo o livro, eu queria falar bem mais sobre tudo aqui, mas não tem como, só se eu fizesse um vídeo. 

Olga Lengyel, foi uma sobrevivente, lutou pela liberdade e dignidade de todos que estavam no mesmo barco, seu marido morreu, assim como os dois filhos e os seus pais. Ela fugiu já no final de tudo, mas por pouco não morre, como muitos morreram na evacuação feita pelos nazistas. É uma história surpreendente, que ela pode hoje se orgulhar de dar sentido e honra para os que conheceu, os que ficou perto, os que testemunhou ou que ainda estão vivos. Eu sinto muito por ela, por tudo que passou, se eu pudesse, se tivesse como, eu a abraçaria, iria querer morar com ela e tentar fazer com que divida toda a dor que passou. 
Jamais vou me esquecer que ela sofreu, mas também matou, mas matou por ordem, sem ter alternativa alguma. Acredito que assim como ela diz, jamais será possível esquecer, apagar da memória o choro dos bebês, ou a valentia das crianças antes da morte.
"Talvez o maior crime que os “super-homens” cometeram contra nós fosse sua campanha, muitas vezes bem-sucedida, para nos transformar em bestas monstruosas."
Quem ai já leu? Sinto que não há como resenhar um livro como esse, me desculpem por essa postagem tão enorme.



9 comentários:

  1. Oi Melissa,
    Super entendo, existem obras que mesmo a gente falando falando falando, não fala nada, né? E essa temática ainda, é muito delicada.
    beijos
    http://estante-da-ale.blogspot.com/

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  2. Meu Deus, Mel!
    Que livro forte
    a descrição da gordura e salsicha me fizeram quase passar mal
    Realmente é muito interessante ler sobre a época, mas é muito triste, de fato
    E é interessante lermos um pouco para termos uma visão de como realmente era
    Super te entendo na resenha
    Tem coisas que a gente só consegue sentir...

    Beijocas da Pâm
    Blog Interrupted Dreamer

    Beijocas da Pâm
    Blog Interrupted Dreamer

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  3. Tenho certeza que é um conteúdo pesado, mas fico feliz que tenha leveza na escrita. Tenho muita vontade de ler a obra.

    Beijos

    Imersão Literária

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  4. Olá,

    Lendo suas resenhas e trechos escolhidos realmente vemos como a leitura é bem intensa e destruidora.
    Imagino a tortura e o sofrimento daquelas pessoas na época.
    Muito triste.

    Bjs e uma boa semana!
    Diário dos Livros
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  5. Oi
    eu não conhecia esse livro e que intenso que você relatou, ainda mais pela história ser baseada na vida da autora, deve ser uma história forte e revoltante, ainda mais por sentir a dor do que ela viveu, uma boa indicação.

    http://momentocrivelli.blogspot.com/

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  6. Livros desse tipo me deixam muito mexida. Sabemos que todo o horror escrito ali é mais do que real e muitas vezes palavras não são o suficiente para descrever o terror vivido por alguém. Olga sofreu demais, imagino a dor e culpa que carregou dentro de si por tanto tempo. Vou anotar o livro para poder ler depois.

    Abraço,
    Parágrafo Cult

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  7. Oi, Melissa

    Através da sua resenha consigo sentir todo o peso da história, mas não seria algo que eu leria. Não gosto de ler nada sobre as guerras, sobre nazismo, holocausto e afins. Não me faz bem. Mas é importante que haja histórias assim para o terror não ser esquecido e para não ser repetido.

    Beijos
    - Tami
    https://www.meuepilogo.com

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  8. Oie,
    Acho esse tipo de livro de extrema importância para a sociedade, e para que muitos entendam os mais simples sinais para que essa história nunca se repita.
    Parece ser um livro muito pesado, me arrepiei em vários momentos da sua resenha. Acho que não teria forças para ler. Li um livro essa semana, com um tema bem diferente, mas que era angustiante do inicio ao fim e me deixou muito mal.
    Sua resenha está maravilhosa.
    Beeijo!

    Grazy Carneiro
    Meus Antídotos

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  9. Oi, tudo bem?
    Ainda não conhecia esse livro, mas parece ser muito intenso. Acredito que não deva ser uma leitura fácil, principalmente por se tratar de um relato forte e real da própria autora.

    Beijos
    Construindo Estante || Instagram

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