30 de dezembro de 2019

Voz que Grita

Imagem retirada do site We Heart it 
Era mais um dia chuvoso na grande Londres. Todos que não estavam de guarda-chuvas, ou de carro corriam para encontrar um abrigo da chuva. Essas pessoas eram poucas. Eu os observo para escrever meus livros imaginários. Ofegante e sorridente um rapaz chega perto do meu abrigo. Eu conhecia aquele sorriso. Foi um meio sorriso apressado, sem chegar realmente nos lábios nem nos olhos, mal olhou para mim. Ele só estava forçando sorrir para que eu o deixasse ficar ao lado sem momentos constrangedores. Mas era nítido a máscara cansada em seu rosto, isso despertou minha curiosidade. 

A chuva foi piorando a cada minuto e uma olhada ou outra na direção do rapaz me fez confirmar que ele não havia reparado nas minhas coisas no chão, na minha aparência suja. Estava absorto em seu celular. Passou-se bastante tempo até que ele começasse a falar.

- Está feio o tempo hoje, não?

- Ah  sim, quase todos os dias na verdade.

- É - ele sorri. Guarda o celular na mochila e fica encarando à nossa frente onde a chuva estava forte e o vento sacudia as poucas árvores.

- Por que não entra em algum lugar? - Era muito útil todos os comércios perto em um  dia de chuva, mas mesmo assim ele estava aqui.

- Estou bem aqui. - Ainda não olhou pra mim, enfiou as mãos nos bolsos e ali ficamos. Encarando a chuva, as pessoas e os carros.
Um breve momento de torpor tomou meus sentidos. Voltei ao tempo e não conseguia mais ouvir nada. Só ver imagens. Foi como um filme. Vi-me jovem. Vi-em amando. Vi minha vida se destruindo, para eu tornar a viver de verdade.

- Você tá bem? - O rapaz pergunta se aproximando

- Sim, sim.

- Você está meio pálido.

- Estou bem - forcei um sorriso no rosto, mas uma estranha fraqueza foi me tomando.

- Espera um pouco - resmungou pra si, e me amparou até sentarmos no chão frio - O senhor toma algum remédio? O que está sentindo?

A voz dele estava um tanto desesperada e eu não consegui responder suas perguntas, porque relembrar o passado é doloroso demais num dia chuvoso.

- Você está bem? - perguntei ignorando as minhas próprias dores. Ele demorou pra responder, suas mãos foram se distanciando de mim.

- Sim, você é que não parece bem - sorri - você tem alguma doença?

- Não, você está bem mesmo?

- Mais o menos, mas quem realmente não está bem é o senhor. Quer que eu chame ajuda? - Seus olhos ficaram arregalados me encarando e a nossa volta ficou uma névoa de fumaça da nossa respiração.

- Quero só conversar... - Tossi secamente. - Você parecia meio frustado quando chegou aqui

- Tenho alguns problemas da vida. Mas todos nós temos né? - Vi um vestígio assustador da morte em seus olhos e me espantei um pouco.

- Que problemas? Também corre o risco de morar na rua?

- Não, nos negócios.

- Com o que trabalha? - Perguntei, mas reconhecia aquele perfil de seus movimentos e o olhar apressado. Podia jurar que era com algo ilegal, senti o cheiro de medo arder no meu nariz.

- Bom, já que quer tanto saber, trabalho com pessoas, de todas as idades. - Ele puxou sua mochila no canto e começou a mexer nela, eu nada pude ver. O barulho da chuva estava estrondando de maneira que teve que gritar para eu conseguir ouvir. - Dizem que a venda de órgãos não dá muito lucro, mas é mentira, quando se vende em grande quantidade o dinheiro aparece fácil, fácil. Mas também trabalho com outras coisas.

Pânico. Meu corpo entrou em alerta, mas meu corpo de velho não teve o que fazer se não o assistir se movimentar com agilidade com os instrumentos médicos.

- Tenho boates, e numa delas tem uma mocinha que merece uma lição. Merece sofrer para servir de exemplo para as demais. É assim que as coisas funcionam, não é Romeu? - Eu ainda estava em alerta, mesmo sabendo que era meus últimos minutos de vida.
Ele arrancou minha camisa velha.
O mais apavorante é ele me conhecer, não estava muito preocupado em morrer, o que um morador de rua poderia perder?

- Investigamos a vida dela e descobrimos quem era o pai.

- Não! - Terror nublou meus olhos, gritei esganiçado tentando me afastar dele que já estava me cortando.

- Mas fique tranquilo, não enrolarei para contar a ela de sua morte.

- Não. Não. Não. - Minhas mãos se movimentaram por conta própria, descontroladas, por instinto tentando o afastar. Então passei a gritar sem sentir mais nada. Tudo se tornando preto, com um zumbido no ouvido.
Gritei repetidas vezes na minha cabeça. Gritei.
Odiei o cheiro de medo. A dor dilacerou meu coração, não de mim, mas por minha filha.
Me odiei por ter me afastado. Mas o remorso tinha uma vida curta demais na minha vida, pois ela estava no fim.
O tema do Projeto Escrita Criativa do mês de Dezembro é "Voz que Grita"  não participei muito esse ano, mas mesmo assim quis fazer o desse mês ^-^ Clique Aqui para saber mais sobre o projeto 

6 comentários:

  1. Nossa, você escreve muito bem!
    Me apertou muito o coração, fiquei com dó e queria que tivesse um final feliz mas sei que nem sempre isso é possível rs
    Parabéns pelo texto, sua escrita é incrível.

    Abraço,
    Larissa | Parágrafo Cult

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    1. Ah meu coração se incha de alegria com seu comentário ❤️ muito obrigada *-*

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  2. Oi, Melissa! Feliz 2020. A voz que grita costuma causar transtornos às vezes irreversíveis. O texto ficou muito bom. Abraço!

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Olá, que bom que veio!
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